Ontem à noite, cheguei a casa depois de termos estado juntos com vontade de te escrever.
Sinto que me faz bem, que me ajuda a arrumar ideias a pôr as coisas em perspectiva, mas aborrece-me pensar que às vezes pareces duvidar da autenticidade das coisas que digo eque achas que faz tudo parte de um plano para atingir objectivos menos dignos.
Sei que dizes que é a brincar, mas nem por isso deixa de ser incómodo. Sinto-me particularmente ferido com essa ideia porque o que sinto por ti é precisamente o oposto. Acredita que não exitaria por um segundo em pôr o teu bem estar à frente do meu se achasse que ambos eram incompativeis. Por isso, refreei o meu impulso e não te escrevi, mas depois não dormi nada bem...
Pensa o que quiseres, mas gosta de mim, ou odeia-me por aquilo que sou, e não por aquilo que pensas que possa ser...
É verdade que nos conhecemos há muito pouco tempo, mas apesar disso, já falámos em profundidade de tantas coisas que não penso que ainda possamos dizer que nos conhecemos mesmo mal. Já escalpelizamos, quase tudo e não creio que neste momento haja muito a acrescentar, mesmo assim, falar (ou neste caso escrever) ajuda-me a emergir do talturbilão que teima em me arrastar para o fundo.
Ontem cheguei a casa animado. Foi bom estar e conversar contigo. Fiquei sem qualquer dúvida que aconteça o que acontecer, que vamos mesmo ser grandes amigos. Que seja o que fôr que o Futuro nos reserve, que já ninguém me tirará os momentos mágicos que partilhámos e que deveria estar grato por isso (sei que vai parecer absurdo, mas um do sque guardo com maior carinho foi aquando daquelas compras na loja dos Indianos). Mas hoje de manhã inexplicavelmente voltei a acordar na fossa.
Quando leres esta mensagem estarei provavelmente de carro a caminho das minhas férias emfamília. No banco de trás, as minhas filhas, que são a coisa mais importante da minha vida (mais até que a minha própria vida), ao meu lado, a mãe delas. A minha mulher, apessoa com quem escolhi viver. Com que fui feliz, com que partilho bons e maus momentos,com quem planeei a minha vida.
Vão todas a dormir. À minha frente a estrada desenrola-se monotonamente, sem surpresas e na minha mente a tua imagem não se esbate por um único instante...
Já não sou (nunca fui aliás) um adolescente impulsivo que se deixa inebriar com a paixão mais fugaz. Sou o tal româtinco pragmático. Sei que a paixão e o amor são circunstanciais e acredito que aquilo que vemos nos outros (em particular naqueles por quem nos apaixonamos) que é em parte construido por nós próprios. Mas o facto de procurar (e depor vezes conseguir) descodificar o que está por trás de determinados sentimentos, não lhes retira força ou importância. Não sei bem o impacto que aquilo que aconteceu irá ter no Futuro. Não quero que nem eu nem tu façamos alguma coisa que possa não ser o melhor para ambos e para cada um de nós.
Como te dizia ontem, parece-me neste momento tão perigoso arriscar pôr em causa o percurso que temos vindo a traçar, como olhar para o lado e fazer de conta que não se passou nada entre nós ou que teve pouca importância. Estou contente por estarmos de acordo em adiar o que quer que seja para depois das férias. Em teoria, está tudo bem, na práctica não sei como vou aguentar uma hora sem te ver, quanto mais um mês...
O meu "mantra" sempre foi o autocontrole. Sempre achei (de forma eventualmente primária até) que aquilo que nos separa dos outros animais é a nossa capacidade de contrariar os impulsos e instintos mais básicos e primitivos. No passado entretive-me arranjar pequenos e inofensivos vícios para ter o simples prazer de os vencer. Quando decidi fazer dieta, senti que havia em mim um anoréxico potencial. Sei que sou senhor da minha vida e das minhas opções, sei que posso vencer qualquer tentação. O Oscar Wilde dizia que "The only way to get rid of a temptation is to yield to it. Resist it, and your soul grows sickwith longing for the things it has forbidden to itself." mas neste caso nem sequer é isso que está em questão.Quero que percebas que o que está em causa para mim não é escolher entre uma tentação do momento, algo instantâneo ou passageiro e uma solução sólida de Futuro. O sal da vida é a liberdade, a liberdade de escolher o caminho que queremos percorrer. É desse caminho que estou sempre à procura, por que me agrada a ideia de poder improvisar, de fazer pisca àdireita e voltar à esquerda. Sempre que optamos por um caminho, deixamos outro para trás,mas isso não me preocupa. Quando estou contigo sinto-me outra pessoa. Uma pessoa a quem apetece ver-se no espelho,pensar no amanhã... Quanto te olho nos olhos, vejo o mundo inteiro. Quanto estou à tua espera e te vejo chegar, parece que a noite se transforma em dia. Quando sinto a tua pele junto da minha, parece que o mundo pára à minha volta. Quando provo o sabor dos teus lábios (dos seis) sinto-me transportado para um dimensão onde os meus mais ousados sonhos parecem tremendamente aborrecidos. Quando sinto o odor do teu cabelo...
E tudo isto não passa do marulhar das ondas que rebentam na areia, porque a verdadeira tempestade se desenrola lá longe no alto mar e em águas profundas...Não quero pensar na minha vida sem me voltar a sentir assim.Prometo que vou tentar passar umas férias fixes (e tu tens de prometer o mesmo a tiprópria). Prometo que não vou ceder à tentação de te mandar uma mensagem de minuto aminuto (porque não seria bom para nenhum de nós), mas não posso prometer que não irei pensar em ti pelo menos 3600 vezes por hora.Vou respirar fundo, contar a até 10 e aguardar serenamente pelo nosso próximo encontro e pela eventual clarividência que as férias nos irão trazer.
Tu és simplesmente demais.